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publicado em:31/01/19 5:27 PM por: Viana Patricio B Neto

Resumo da sessão

A proposta desta sessão é aproximar o pensamento de Milton Santos e Ana Clara Torres Ribeiro com a temática do XVIII ENANPUR: TEMPOS em/de TRANSFORMAÇÃO – UTOPIAS. No XVI e XVII ENANPUR, convergências entre suas obras e as temáticas dos encontros foram exploradas nas Sessões Livres “Visões de mundo a partir do olhar de Ana Clara Torres Ribeiro” (2015) e “Território usado/praticado como categoria central do planejamento urbano e regional” (2017). Agora, quando se indaga sobre o presente e “a ideia de que são tempos de construir projetos utópicos para um novo tempo ou para os novos tempos”, articulam-se, mais uma vez ao norteamento, a geografia de Milton Santos e a sociologia de Ana Clara. A teoria social que desenvolvem é base indispensável à análise de possíveis históricos. Produzem importantíssimo arcabouço do pensamento crítico, especialmente sobre a globalização que, em Milton Santos, constitui um paradigma para a compreensão dos diferentes aspectos da realidade contemporânea. E esse é o ponto de partida das problematizações que se pretende desenvolver na sessão. Se a globalização é paradigma para se pensar o mundo contemporâneo, o futuro, o projeto “para um novo tempo ou para os tempos novos”, pressupõe imaginar um mundo pós-globalização. Ou, no mínimo, outra globalização – a globalização como possibilidade opositora ao projeto dominante e hegemônico de globalização. O pensamento do projeto está, pois, em aberto. Para Milton Santos, diante dos mesmos materiais que hoje existem, é viável realizar o contrário. Daí a política, a relevância da prática social e da ação política, centralidades conceituais nos escritos de Ana Clara que tornam seu diálogo com Milton Santos uma das mais profícuas contribuições teóricas das ciências sociais e humanas produzidas no Brasil. A política, “arte de pensar mudanças e criar condições para torná-las efetivas”, diria Milton Santos, faz com que seu trabalho seja compreendido por Ana Clara como uma obra dirigida ao futuro, que é sempre obra aberta, capaz de propor novos questionamentos. Daí a pertinência do pensar outros tempos, um mundo pós-globalização. A possibilidade teórica de se engendrar outra globalização advém da produção rigorosa de conceitos e categorias que, se abrindo à análise crítico-propositiva, permite expandir a teoria em consonância à prática. Tal é o sentido do território usado. No diálogo geográfico-sociológico desses autores, o território usado/praticado é o lugar de construção dos projetos. A centralidade do conceito de ação política está subjacente à proposição do território usado. Para a socióloga, o pensamento de Milton Santos envereda-se na conceituação do território interpretado como “ponte” estrategicamente posicionada entre a teoria crítica do espaço e a ação política, e como mediação e contexto para o diálogo interdisciplinar. É a dimensão analítica mais adequada para compreender o fenômeno espacial no cenário da globalização. É um campo de forças, lugar da dialética entre Estado e Mercado, entre uso econômico e usos sociais dos recursos. É território usado, de relações, conteúdos e processos que permitiria que a política fosse elaborada de baixo para cima. Para se refletir o mundo pós-globalização, a teoria espacial, aliada às suas convergências interdisciplinares, reposiciona a problemática da ação política a um patamar reflexivo superior, como lugar dos projetos, de construção dos projetos no “tabuleiro do jogo político”. Ana Clara Torres Ribeiro lembra que, no contexto atual, em que a globalização se apresenta como único projeto possível, é fundamental compreender que a desestabilização está posta e, com ela, a criação de possibilidades de se pensar a partir do futuro, e não apenas a partir do passado. Temos, nesse momento, uma abertura para a ação racional, para a ação política de ressistematização do mundo, de construção de alternativas. Em “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, Milton Santos conclui que as pré-condições históricas para a “grande mutação contemporânea” já estão dadas. Para o mundo pós-globalização, basta que se completem duas grandes mutações: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana. A mutação tecnológica seria pensada em relação às barreiras para a utilização das técnicas de informação como “técnicas doces” a serviço do homem; a mutação filosófica, atribuindo “um novo sentido à existência de cada pessoa e, também, do planeta”. Utopia. Possibilidades históricas. É disso que se trata.

Subdivididos em dois blocos, os temas abordados nesta sessão pretendem contribuir no debate que envolve a reflexão de cenários alternativos à globalização da economia, da sociedade e do espaço. O primeiro bloco apresenta possibilidades teóricas de que o tempo presente abriga transformações com perspectivas libertárias. Em diálogo opositor a essa visão, o segundo discute desafios e limites. Introduzindo o primeiro bloco, a comunicação “Urgências da atual conjuntura histórica: do período técnico-científico-informacional ao período popular da história”, de Manoel Lemes da Silva Neto, traz elementos e evidências que sustentam a possibilidade teórica de que o mundo pós-globalização corresponde à insurgência do período demográfico, ou popular da história. Em “A pirataria como contra-racionalidade: os objetos técnicos como suporte à flexibilidade tropical e ao mercado socialmente necessário”, Fabio Tozi dá continuidade a essa aproximação do tema a partir da apropriação de categorias radicalmente inovadoras propostas por Milton Santos e Ana Clara. Flexibilidade tropical e mercado socialmente necessário exemplificam a classe de conceitos que surgem para explicar o humanismo concreto e o mundo praticado pelo homem lento. Na linha das apropriações vinculadas ao “socialmente necessário”, o trabalho de Carmen Beatriz Silveira – “Percepção sensível do espaço urbano e presentificações” – ilustra as abordagens impulsionadoras de outras ideações para as políticas públicas de caráter territorial num possível mundo pó-globalização. Às presentificações transgressoras do cotidiano dos grupos populares, erigem-se aproximações vinculadas à leitura sensível do território e processos que incorporam o “outro” na concepção do projeto.

No segundo bloco, as intransponibilidades, não no sentido de que sejam barreiras invencíveis, mas como reflexão que ajuda medir a altura dos muros a serem ultrapassados. Como questão de método, apresentam a envergadura da ação política necessária à superação do globalitarismo e ensaiam impedimentos à “grande mutação contemporânea”. Em “A noção de forma-conteúdo aplicada ao estudo das conjunturas sociais”, de Pedro Cláudio Cunca Bocayuva, entrevê-se a amplitude dos obstáculos que se interpõem à realização da mutação filosófica capaz de engendrar o mundo pós-globalização. A comunicação revela dimensões neoliberalizantes da problemática e arcabouço conceitual para sua análise por meio da forma-conteúdo. Conduzida pela utilização democrática dos meios de comunicação e informação, a mutação tecnológica que pode colocar em marcha outra globalização é cotejada no trabalho “Do sonho da hiperconexão ao pesadelo da imobilidade” de Rodrigo José Firmino, Bruno Cardoso e Rafael Evangelista. À serviço dos projetos hegemoneizantes, a manipulação deliberada das informações é dramática. À utopia, a distopia. Dessas abordagens, mesmo que diversas por natureza, a percepção comum dos trabalhos é que o espaço abriga o projeto científico de mudanças veiculadas pelo humanismo concreto. Há um reino de possibilidades perceptíveis no tempo empiricizado e na ação política dos sujeitos coletivos. A construção teórica do futuro no presente envolve a elaboração científica da utopia, que, como lembra Milton Santos ao citar Marcuse, corresponde à “coragem de elaborar uma nova definição do conceito de liberdade” para além do reino da necessidade. Afinal, existem, hoje, as forças materiais e intelectuais para a efetivação de um novo projeto de transformação. E esse é um papel a ser desempenhado pelo esforço conjunto das disciplinas territoriais.

Urgências da atual conjuntura histórica: do período técnico-científico-informacional ao período popular da história

Manoel Lemes da Silva Neto – Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo/PUC-Campinas

Na obra de Milton Santos, a noção de tempo empírico autoriza a refletir periodizações e a “encarnar”, nos trabalhos científico e político, “a possibilidade de futuros realizáveis”, de “negação da ideia dos impossíveis”, de “utopia científica”. De uma história já feita rumo a história ainda por fazer. O tempo empiricizado abre ao presente à ideia de projeto. Do que pode vir a ser. A partir desse norteamento, o trabalho explora convergências teóricas entre geografia, sociologia e urbanismo e propõe que, sob as circunstâncias atuais de alta instabilidade e incertezas, a disputa de projetos para o futuro encontra-se em aberto. O período técnico-científico-informacional, o já construído, à luz das contra-racionalidades, das tendências contra-hegemônicas, expõe ações libertárias e insurgentes. Realizando-se em múltiplas dimensões (global, nacional, regional, urbana, dos lugares e da corporalidade), as contra-racionalidades atribuem outras e novas associações às formas-conteúdo e anunciam, no período histórico atual, a constituição do período demográfico ou popular da história. Discute-se, em Ana Clara Torres Ribeiro, a “parecença” do século XXI com o século XVI, o “Renascimento que as forças hegemônicas dirão que não existe”. Por hipótese, há, desde agora, evidências de que a constituição do período popular da história está em pleno curso.

A pirataria como contra-racionalidade: os objetos técnicos como suporte à flexibilidade tropical e ao mercado socialmente necessário

Fábio Tozi – Departamento de Geografia –  IGC/UFMG

O processo de Ocidentalização do Brasil impõe a difusão espacial de objetos técnicos que caracterizam uma certa modernidade, apoiados em uma rigidez crescente das normas de seu uso e do próprio uso do território. Todavia, em contextos de modernização desigual da sociedade e do território, com o aumento da pobreza estrutural, as contra-racionalidades se multiplicam a partir da diversidade de condições concretas de existência dos lugares. Uma leitura possível das contra-racionalidades é o que se denomina vulgarmente como ‘pirataria’ (de objetos, de informações, de ideias, de marcas, etc.). Associada normalmente a contextos de criminalização da pobreza, a pirataria pode ser compreendida como usos não hegemônicos da técnica a partir dos projetos lugarizados da ação, como temos debatido (TOZI, 2013). Os rígidos objetos informáticos permitem, contraditoriamente, usos flexíveis, mesmo que estes sejam considerados ilegais. Nesse sentido, retoma-se o diálogo desenvolvido entre as categorias flexibilidade tropical (SANTOS, 1996) e mercado socialmente necessário (RIBEIRO, 2005). Nessa leitura, a pirataria não é uma aberração econômica ou jurídica, mas uma manifestação emblemática das tensões que caracterizam o processo de globalização, revelando brechas ao entendimento do que os autores denominaram período popular da história e humanismo concreto.

Percepção sensível do espaço urbano e presentificações

Carmen Beatriz Silveira – Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro

O estudo aborda aspectos relacionados à percepção de trechos urbanos que sofreram transformações recentes na cidade do Rio de Janeiro e que se encontram ocupados por grupos populares em diferentes formas e apropriações. Com a implementação de alguns programas urbanos na área da antiga Colônia Juliano Moreira, desde 2007, e de intervenções de mobilidade urbana decorrentes das demandas de megaeventos, o território passou por mudanças expressivas na sua infraestrutura. As condições de habitabilidade revelam distintas situações nessa intensa exposição a ações públicas e a movimentos sociais significativos. A percepção sensível do espaço urbano e suas presentificações, indissociáveis da “crise societária”, expõem a desconstrução dos propósitos enunciados nos programas de urbanização e de provisão de habitações, no intuito de reduzir o déficit de urbanidade. Sublinha-se as ideias de Ribeiro (2013) sobre a “complexa vida de relações que surge nas práticas cotidianas”, ao reiterar “a aceitação mais ampla, de formas locais de vida – de menor escala e expressivas da diversidade cultural, com possibilidade de inclusão de atores populares (…)”. Aciona-se, igualmente, a percepção da dinâmica na reconfiguração espacial e a assessoria a movimentos sociais naquele território, além da potencialidade da cartografia da ação em processos educativos e troca de experiências.

A noção de forma-conteúdo aplicada ao estudo das conjunturas sociais

Pedro Cláudio Cunca Bocayuva – Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos/UFRJ

A noção de forma-conteúdo, encontrada em Antonio Gramsci, Ana Clara Torres Ribeiro e Milton Santos, permite captar as características das mutações globais na relação com os modos de ordenamento sócio-espacial. Pensar as mutações e impulsos globais da mundialização na etapa neoliberal pode ser feito pelo registro do cotidiano nos lugares, em especial desde a centralidade das periferias. Como pensar a forma-conteúdo dos novos regimes de segurança e da atualização da necropolítica, do direito de matar, na sua relação com o ciclo do capital após 2001, como guerra, e, após 2008, como crise da financeirização? Como explicar as componentes da recomposição subjetiva e objetiva, global e local na chave da espacialização? Nesta ótica, a componente política subjetiva articula fascismo social com a materialidade do ajuste permanente do neoliberalismo. O processo de governo se sustenta pela militarização dos territórios, pela expansão dos regimes punitivos e pelo horizonte de acumulação e destituição de direitos via a privatização. A noção forma-conteúdo permite a formulação sintética de uma percepção da relação força bruta-finanças, da forma-conteúdo de novos regimes de segurança que opera através de processos e usos do território que combinam: a produção do espetáculo e o regime imagético na sua articulação com um urbanismo bifronte de guerra e negócios. Aqui a mutação na psicoesfera é decisiva.

Do sonho da hiperconexão ao pesadelo da imobilidade

Rodrigo José Firmino – PPGTU/PUC-PR

Bruno Cardoso – Programa de Pós-graduação em Antropologia e Sociologia/UFRJ

Rafael Evangelista – Programa de Pós-graduação em Popularização da Ciência e da Cultura da Universidade Estadual de Campinas

Na obra “The Electronic Eye: The Rise of the Surveillance Society”, David Lyon apontava a circulação de informações pessoais como um dos principais aspectos a serem questionados sobre as mudanças tecnológicas do final do século XX. A ética e a economia política da vigilância tornaram-se, então, assuntos relevantes para as ciências sociais. Isto foi em 1994, quando ainda muitos estavam maravilhados com a novidade da Internet, e sonhavam com as possibilidades de uma sociedade democrática e hiperconectada, com a resolução de desigualdades históricas a partir de comunidades digitais. Mais de duas décadas se passaram e, após o 11 de setembro de 2001 e as revelações de Edward Snowden, informações pessoais agora são dados pessoais. Lidamos com o fenômeno do chamado Big Data, e com caixa-preta de poderosos algoritmos que governam o movimento de dados e todos os fluxos que derivam destes sistemas. As desigualdades aumentaram, assim como a preocupação com as formas pelas quais os dados pessoais são coletados, compartilhados, trocados, vendidos e classificados para produzir vários tipos de segregação social, como parte do que Shoshana Zuboff (2015) chama de Capitalismo de Vigilância. Neste ensaio, pretendo usar um exemplo latino-americano deste fenômeno para refletir sobre o paradoxo de uma sociedade hiperconectada que ao mesmo tempo produz possibilidades para a ampliação de padrões de imobilização a certos grupos e indivíduos, e para mostrar como manifestações complexas e idiossincráticas do capitalismo de vigilância podem ser extremamente dependentes de contextos locais.





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